Não é obrigatório (nem saudável) ser feliz o tempo todo

Você pode estar satisfeita, nas sua, com raiva, medo ou dor. É assim que se chega ao equilíbrio

Estamos a maior parte do tempo cercadas pela felicidade. Fotos de pessoas nas redes sociais são quase sempre sorridentes e comemorando alguma coisa, o discurso geral é que a vida é uma constante busca pela felicidade (com um sorriso no rosto). Ok, ser feliz é legal mesmo, todos gostamos, claro. Mas sejamos sinceras: não é possível ser feliz o tempo todo, né? Existem aqueles momentos em que ficamos mais introspectivas, com raiva, com medo ou simplesmente de boa.

“Há quem se sinta até culpado por não estar em um estado constante de felicidade quando tem uma vida estável, com emprego, um bom relacionamento, bons amigos. Só que não existe motivo para culpa quando se está sendo apenas humano”, diz a coach comportamental Mirella Luz. “Todo mundo tem o direito de ser rabugento, triste, alegre ou o que quiser, de acordo com o que estiver vivendo. Isso é saudável”.

Não vivenciar ou externar emoções variadas vai até contra a natureza. É o que defende Patrícia Cândido, filósofa, escritora e cofundadora da Instituição Luz da Serra-RS: “Com as estações do ano, a natureza mostra que a vida é feita de ciclos que vão do mais exuberante ao mais sombrio. Nós, mulheres, temos ciclos hormonais que fazem com que em cada época do mês nossos corpos reajam de uma maneira. É humanamente impossível se sentir sempre de um mesmo jeito”.

Então a boa notícia é esta: não é obrigatório nem saudável ser feliz 24 horas por dia, sete dias por semana. Ufa!

Quem inventou essa história de felicidade total?

Mirella e Patrícia consideram que as redes sociais criaram a necessidade de ser feliz o tempo todo. “É o monstro da felicidade nas telas dos nossos smartphones”, define a coach. Já a filósofa observa que “antigamente não era tão necessário ser feliz. Hoje, por causa das redes, criou-se a consciência coletiva de que é preciso fazer de tudo para ser feliz ou, pelo menos, mostrar isso”.

Segundo a psicóloga clínica especializada em gerenciamento de emoções e conflitos Lizandra Arita, porém, o ideal da felicidade plena vem de muito antes. “As pessoas sempre fingiram ser felizes. Há muito tempo isso é trabalhado na terapia: encontrar o que traz a felicidade real, o que é realmente importante na vida de cada um”, afirma.

Um bom exemplo é o caso das mulheres mais antigas, que fingiam que estava tudo bem no casamento horroroso porque o divórcio era mal visto, sabe? O sorriso que pode esconder a tristeza vem de muitas décadas atrás.

Fique tranquila: faz bem sentir raiva

“Se permitir sentir emoções inferiores, como a raiva, o medo e a angústia, é bom e importante para valorizar as emoções superiores, como a felicidade, a gratidão e o êxtase. Só conhecemos a luz se soubermos o que é a escuridão”, exemplifica Patrícia.

Além disso, essas emoções inferiores podem ser indícios de algo maior que precise ser tratado. “Sentimentos são sintomas. Assim como uma dor física pode indicar um problema no corpo, um sentimento como a tristeza que não passa pode sinalizar uma doença emocional que precise de tratamento, como a ansiedade, a depressão. Quem se aceita em todos os humores consegue pedir ajuda e se tratar”, diz Lizandra.

Externar apenas felicidade o tempo todo seria, inclusive, um indício de que a pessoa não sabe lidar com frustrações. “Muitas pessoas não conseguem dar conta de assumir um sentimento como o medo, a tristeza, a raiva, a dor. Buscam alternativas em remédios, compras ou vícios para sufocá-los, porque foram ensinadas que não podem demonstrar nada negativo. Para elas, a única coisa que pode ser mostrada é a alegria”, explica a psicóloga.

Lembre-se de que até o Dalai Lama – o DALAI LAMA – já assumiu que sente raiva quando as coisas não dão certo. Se ele pode, miga, a gente também pode!

Como equilibrar as emoções

Não custa reforçar que ninguém aqui está menosprezando as boas emoções ou as jogando para escanteio: o lance é que não é natural nem saudável fazer de tudo para sentir apenas felicidade – ou, pior, para fingir que é feliz o tempo todo.

Em vez de sufocar a raiva, você pode trabalhá-la em uma atividade física ou um hobby, como sugere Patrícia. Em vez de se forçar a parecer feliz para os outros, você pode trabalhar sua autoestima para não se importar com a opinião alheia sobre suas emoções, como orienta Lizandra. Assim, fica muito mais fácil acolher as forças negativas que estão presentes em todos nós de vez em quando, transformá-las em algo construtivo e só compartilhar sorrisos quando eles forem verdadeiros.

Fonte: https://mdemulher.abril.com.br

 

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